O que esperar de 2020?

À semelhança do que tenho feito nos anos anteriores, gostaria de apresentar algumas tendências do sector veterinário para o ano de 2020. Os últimos anos têm sido generosos para o desenvolvimento da indústria veterinária nos mais variados domínios e a tendência é de continuidade e desenvolvimento sustentado do sector.

O que eu espero de 2020?

  • Economia portuguesa: o contexto macroeconómico determina uma maior ou menor evolução dos diferentes sectores de actividade, não sendo o sector veterinário uma excepção, pois se o poder de compra diminui, a facturação dos CAMV também diminui. O Banco de Portugal (BdP) manteve a sua previsão de crescimento de 2% para 2019 e de 1,7% para 2020. A estimativa do BdP para 2020 está abaixo da do Governo, que antecipa uma expansão do PIB de 1,9%, segundo a proposta de Orçamento do Estado para 2020, entregue na primeira quinzena de Dezembro na Assembleia da República, uma décima abaixo do previsto anteriormente pelo executivo. A previsão do Governo para a evolução da economia no próximo ano é também mais optimista do que a da OCDE (1,8%), Comissão Europeia e Conselho das Finanças Públicas (1,7%) e do FMI (1,6%), pelo que nesta altura confio mais nas previsões do BdP do que do Governo. Ainda assim, um crescimento acima da média dos países do Euro (previsto 1,2% para 2020). Mas devemos considerar que alguns riscos poderão conduzir a um crescimento inferior ao previsto, pois um novo aumento do grau de incerteza ou um agravamento das tensões comerciais ou geopolíticas poderá travar o crescimento, o mesmo sucedendo com uma desaceleração mais acentuada do que o previsto na China devido a efeitos mais ténues das medidas estratégicas adoptadas até à data. A nível da UE, os riscos incluem um Brexit caótico e a possibilidade das vulnerabilidades do sector da indústria transformadora terem um efeito de contágio mais significativo nos sectores orientados para o mercado interno.
  • Crescimento do sector veterinário: com uma taxa anual média de crescimento na ordem dos 11% nos últimos anos, estou convicto que 2020 manterá os mesmos índices de crescimento. O sector veterinário está a tornar-se um caso sério no tecido empresarial português e não identifico, de forma inequívoca e clara, barreiras endógenas que criem dificuldades no crescimento dos CAMV. Já temos próximo de 1.650 unidades médico-veterinárias em Portugal e acredito que no final de 2020 coexistam entre 1.700 e 1.750.
  • Salários médios: os salários dos profissionais do sector têm vindo a aumentar muito acima da inflação nos anos mais recentes, em particular dos médicos veterinários. No seguimento do inquérito que ministrei a cerca de 200 profissionais no final do ano passado, no evento Vetbizz (Encontro Anual de Gestão), é legítimo crermos que cerca de 40% dos CAMV estejam nesta altura à procura de, pelo menos, um médico veterinário e cerca de 30% de, pelo menos, um enfermeiro veterinário. Recordo que no mesmo inquérito cerca de 50% dos CAMV presentes afirmaram que os salários do seu corpo clínico tinham aumentado, nos 12 meses anteriores, mais de 5% e cerca de 20% respondeu ter aumentado mais de 10%.

Há quem acredite que com o Brexit teremos mais capacidade de reter talentos em Portugal, no entanto uma estatística divulgada em finais de Dezembro de 2019 pela Segurança Social britânica prova que o Brexit não travou a emigração para o Reino Unido, pois 23.570 portugueses deram entrada no solo britânico nos últimos 12 meses, sendo que a tendência de saídas começou a ser invertida no último trimestre de 2018.

O ano de 2020 será igualmente desafiante para os CAMV no que respeita à política salarial dos seus profissionais.

  • Gestão de recursos humanos: continuará a ser um hot topic nos CAMV! Estamos todos cientes da dificuldade que é gerir recursos humanos (ou como diria a Nelma Pontes, CEO da Win Coach Academy, “humanos com recursos”), independentemente do sector de actividade, mas na veterinária, pelas suas especificidades, ganha outro relevo. Já no referido inquérito, cerca de 40,1% referiu os Recursos Humanos como sendo a área onde sentiam mais dificuldades. Fruto do crescimento e dinâmica do sector, prevejo que esta área continuará a ser um “tema quente” em 2020…
  • Lean Management: muitas vezes abordamos o tema da improdutividade associando a este conceito um menor desempenho do profissional a nível comercial (leia-se, “vendas”). Contudo, a falta de produtividade pode ser gerada por muitos outros factores. Basta a estrutura do seu CAMV não estar devidamente organizada, que terá inevitavelmente reflexos na produtividade dos seus colaboradores. No referido inquérito questionei a audiência de qual seria a área em que iriam apostar mais em 2019 e, surpreendentemente (ou não), os Recursos Humanos foram substituídos pelos Processos Internos: cerca de 44% respondeu que iria apostar mais nesta área, indiciando claramente que o lean management é uma aposta dos CAMV, por ser uma filosofia de gestão centrada na melhoria da produtividade, reduzindo ou eliminando custos e tempos, com vista a promover as actividades que realmente acrescentam valor para o Cliente.
  • Operações de aquisição e fusão: há já um par de anos que se fala numa intensificação das operações de concentração no sector veterinário. Nesse período comprovámos que efectivamente já há aproximações de grupos investidores e/ou empresas de capital de risco a inúmeros CAMV a nível nacional, como é o caso da Anicura ou VetSum. Contudo, cada grupo tem o seu posicionamento definido, o que significa que grande parte dos CAMV pode ficar fora das cogitações destes grupos. Mas será muito interessante acompanharmos a entrada de novos grupos no nosso país, como possam eventualmente ser a IVC Evidensia, UnaVets, Mivet ou Aspad, sendo que estes últimos três já se estabeleceram no país vizinho e que, por questões de proximidade e afinidade cultural, até poderão estar interessados em Portugal. Nesse caso, abre-se um leque de oportunidades para muitos CAMV, pois certamente cada um daqueles grupos terá o seu próprio posicionamento no mercado.
  • Especialidades: com a crescente maturidade do sector, começa a ser natural falar de Especialidades na veterinária. Prova disso é o facto de já existir um Regulamento Geral das Especialidades, que foi já inclusivamente revisto recentemente pela OMV. No inquérito acima mencionado, quando questionados se já estavam a apostar numa cultura de especialização dos seus CAMV, com a contratação de médicos veterinários especialistas, 36,4% dos profissionais respondeu afirmativamente e 13% indicou já estar a pensar nisso. Todavia, mais de metade dos inquiridos (50,6%) referiu que ainda não estava a apostar em veterinários especialistas. São respostas relevantes se considerarmos que 30,1% dos inquiridos pertenciam a hospitais veterinários.
  • Marketing digital: este é daqueles tópicos que, nos próximos anos, constará sempre nos meus artigos sobre tendências do sector, pois as novidades digitais aparecem a uma velocidade vertiginosa. Para 2020, e segundo especialistas da área, há algumas tendências interessantes nesta área e que, na minha opinião, terão algum impacto no sector veterinário:
    • Publicidade online: o Google AdWords e o Facebook / Instagram Ads manterão o seu papel preponderante para a criação de leads e notoriedade para todas as empresas, em particular para as PME. Segundo a Statista, o investimento global em publicidade online ultrapassou os 333 mil milhões de dólares em 2019, prevendo-se que aumente cerca de 30% nos próximos 3 anos. Impressionante!
    • Inteligência artificial: a IA já invadiu as nossas vidas, mesmo que muitas vezes não nos apercebamos disso. São cada vez mais as empresas a aproveitar as novas ferramentas no mercado (muitas delas usando já os chatbots e serviços com reconhecimento de voz), sendo que a tendência é que continuem a crescer, já que permitem a optimização dos processos e facilitam a relação entre as marcas e clientes. Já tem chatbot no Messenger do seu CAMV?
    • Foco nas reviews: segundo um estudo da Pew Research, 82% dos consumidores consultam reviews dos produtos antes de os adquirirem, sendo que 40% fazem-no sempre! Não subestime o Google My Business do seu CAMV, assim como as reviews das redes sociais, em particular do Facebook;
    • Mensagens instantâneas: os canais de relacionamento com clientes e prospects tem vindo a evoluir muito nos últimos anos. Os SMS, Facebook Messenger e WhatsApp Business estão a ganhar terreno a outras formas de comunicação mais tradicional, como o e-mail ou telefone;
    • Video Marketing: há já alguns anos afirmo que o vídeo é um canal de eleição (ver minha crónica de Novembro de 2015 na revista Veterinária Atual ou pesquisar em vetbizz.pt). O YouTube é sobejamente conhecido, mas esteja atento à nova plataforma de vídeos denominada TikTok, uma plataforma que permite a partilha de vídeos de curta duração, divertidos, criativos e com um enorme alcance. É um verdadeiro fenómeno em todo o mundo e que já conta com cerca de 500 milhões de utilizadores. Não se esqueça, segundo o Dr. James Mcquivey, da Forrester Research, “1 minuto de vídeo vale mais que 1,8 milhões de palavras”.
  • Revisão dos preços nos CAMV: o aumento da pressão concorrencial no mercado veterinário impede que os CAMV possam aumentar os preços como eventualmente mereceriam. Por conseguinte, não prevejo aumentos significativos nos preços médios praticados pelos CAMV, sendo que estruturas mais sólidas, dimensionadas e credíveis terão uma margem maior para rever os seus preços.
  • Isenção do IVA nos serviços veterinários: é um dos grandes compromissos e objectivos da Direcção reeleita recentemente na OMV e façamos votos para que 2020 seja o ano da sua concretização. Para além de ser mais que justa, porque quando falamos de medicina veterinária falamos de saúde pública, a isenção do IVA nos serviços veterinários aportará inevitavelmente uma maior rentabilidade nos negócios dos CAMV.
  • Fidelização: é certo que o mercado de animais de companhia tem vindo a crescer substancialmente nos últimos anos, mas também é certo que os níveis de deserção de clientes continuam a ser elevados: 37,1%, segundo o Observatório de Mercado da OMV. Torna-se, assim, cada vez mais difícil captar-se novos clientes. Para além de factores psicográficos (relativos ao estilo de vida das pessoas), o aumento da oferta e dos CAMV a nível nacional tem vindo a aumentar a rotação dos clientes pelos CAMV, pelo que se torna fulcral que os CAMV adoptem verdadeiras políticas de fidelização, retenção e reactivação de clientes, potenciando os níveis de relacionamento comercial.
  • Animal Wellness: serviços mais variados como os banhos, tosquias, fisioterapia ou hotel animal têm vindo a ganhar extrema relevância no sector veterinário. A crescente consciencialização dos tutores para a saúde e bem-estar animal tem contribuído decisivamente para a afirmação e crescimento destas áreas de negócio. Temos cada vez mais uma oferta diversificada e diferenciada e não há volta a dar: o animal wellness continuará a crescer nos próximos anos.
  • Seguros pet: o número de apólices de seguros de animais de companhia continua a aumentar. Ainda que os CAMV continuem a desconfiar da afirmação deste seguros em território nacional, a tendência é de que o número de subscrições continue a aumentar, sendo que reafirmo que é fundamental que as seguradoras repensem a forma de comunicar no mercado, apostando mais numa estratégia push, utilizando canais above-the-line (imprensa, TV, rádio,…) para sensibilizar os tutores para a importância e benefícios dos seguros de saúde animal. Por outro lado, as propostas de valor têm que ser reequacionadas de forma a que seja inequivocamente um bom negócio para os CAMV e para os seus Clientes.

Aproveito a oportunidade para desejar a todos os leitores da Veterinária Atual um próspero ano de 2020, repleto de concretizações pessoais e profissionais!

Bons negócios!

 



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