Do Boom à Maturidade: O Setor Veterinário Entra Noutra Liga

Se há algo que a última década nos ensinou, é que o setor veterinário português não é uma moda passageira — é uma realidade económica robusta, com um percurso de crescimento impressionante e uma capacidade notável de adaptação. Mas depois da euforia pandémica e de anos consecutivos de expansão acelerada, o setor começa agora a dar sinais claros de maturidade. E, com isso, surgem novos desafios: margens mais apertadas, pressão sociopolítica, maior exigência dos tutores, maior profissionalização e um mercado laboral cada vez mais competitivo.

Entre 2023 e 2024, os indicadores económico-financeiros médios dos CAMV revelam precisamente essa transição: de um crescimento explosivo para uma expansão mais contida, mas estruturalmente mais exigente. E 2025 está a confirmar a tese de abrandamento.

 

Indicadores Económico-Financeiros: O Retrato de 2023–2024

De acordo com dados médios setoriais analisados pela VetBizz, o volume de negócios médio por empresa passou de 279,9 mil euros em 2023 para 285,5 mil euros em 2024, um crescimento de 2%, bastante inferior aos aumentos de dois dígitos registados em 2020–2021.

O EBITDA médio cresceu 2,9%, fixando-se em 35,6 mil euros, o que representa cerca de 12,5% da faturação. Embora positivo, este valor mostra uma ligeira compressão face aos 13,2% registados no período anterior.

A produtividade média por colaborador subiu marginalmente de 1,29 € em 2023 para 1,31 € em 2024 (+1,3%), um crescimento insuficiente para compensar o aumento dos custos salariais. Já o peso médio das compras passou de 30,2% para 30,4% da faturação, aproximando-se do limite superior das boas práticas de gestão veterinária.

O resultado líquido médio por empresa manteve-se praticamente estável, passando de 19,8 mil euros em 2023 para 20,1 mil euros em 2024 (+1,5%), o que confirma a pressão crescente sobre as margens finais, num contexto de custos operacionais em alta. Em suma: os números mostram um setor sólido, mas claramente em desaceleração.

 

Um Contexto Macroeconómico Menos Favorável e Abrandamento da Faturação

Após um pico de crescimento económico em 2022, Portugal enfrentou uma desaceleração progressiva do PIB real, acompanhada de inflação persistente, taxas de juro elevadas, pressão fiscal constante e um contexto político instável. A dívida pública, embora em trajetória descendente, continua elevada.

A evolução da faturação dos CAMV entre 2021 e 2024 foi notável: de 290 milhões para 370 milhões de euros (+27,5%). No entanto, 2025 marca um ponto de viragem. Desde que acompanho o setor (2009), é a primeira vez que antevejo um crescimento flat. As projeções para 2025 apontam para um intervalo entre -2% e +2% de variação da faturação global dos CAMV — algo sem precedentes.

Este novo cenário obriga gestores e equipas a adotarem uma abordagem mais analítica e menos intuitiva. A monitorização de indicadores de performance, a gestão de tesouraria e a eficiência operacional deixarão de ser “bons hábitos” para passarem a ser fatores críticos de sobrevivência e diferenciação competitiva.

Os dados VetTrack (acumulado até agosto de 2025) mostram que esta travagem não é homogénea. Algumas regiões mantêm crescimento tímido (Norte: +1,7%), enquanto outras enfrentam quebras: Lisboa e Vale do Tejo (-4,1%), Algarve/Alentejo (-2,5%) e Centro (-0,4%).

 

Consolidação: A Nova Força em Movimento

Em 2025, cerca de 8% dos CAMV já se encontram consolidados, ou seja, detidos por grupos nacionais ou internacionais. Esta tendência traz dois efeitos principais: eleva os padrões de gestão e aumenta a pressão competitiva sobre clínicas independentes.

Apesar do abrandamento, os fundamentos permanecem sólidos. Os rácios financeiros estão saudáveis, as margens operacionais acima da média de outros serviços e a procura estrutural por cuidados veterinários mantém-se.

 

Conclusão: Entrámos Noutra Liga

O setor veterinário português entrou numa nova fase de maturidade. Já não basta estar no mercado certo — é preciso ter o modelo certo, a estratégia certa e a execução afinada. Esta travagem controlada não é um fim de ciclo. É o início de uma nova liga, onde os líderes se distinguirão não pela dimensão, mas pela inteligência estratégica e capacidade de adaptação.

 

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